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Desde el Sur

versión impresa ISSN 2076-2674versión On-line ISSN 2415-0959

Desde el Sur vol.16 no.3 Lima jul./set. 2024  Epub 31-Jul-2024

http://dx.doi.org/10.21142/des-1603-2024-0047 

Artículos

Identidade Ibérica: O personalismo em Francisco García Calderón e Sérgio Buarque de Holanda1

Iberian Identity: Personalism in Francisco García Calderón and Sérgio Buarque de Holanda

Identidad ibérica: el personalismo en Francisco García Calderón y Sérgio Buarque de Holanda

1 Secretaria de Educação do estado do Rio de Janeiro. Rio de Janeiro, Brasil. iaravr@hotmail.com.

RESUMO

O presente artigo compara os projetos identitários formulados pelo ensaísta peruano García Calderón (1893-1953) e pelo historiador brasileiro Sérgio Buarque (1902-1982). Serão analisadas as obras Las democracias latinas de América ([1912] 1979), de García Calderón e Raízes do Brasil(1936), de Sérgio Buarque. A temática central desses textos é a busca de autenticidade ante a uma sociedade que se modernizava. Nesse retorno às origens, ambos os autores reservariam à herança ibérica lugar de destaque. Enfatizam-se dois pontos: a) a construção de uma Teoria da América na qual o lugar do Brasil na Ibero-América seria repensado e b) a centralidade que os dois ensaístas reservaram ao personalismo como elemento plasmador de identidade. O artigo buscou destacar o quanto as análises apresentadas pelos autores, concernentes ao personalismo, oferecem reflexões riquíssimas acerca da inserção dele na esfera política. Estas se mostraram temáticas que ainda se fazem presentes na Ibero-América, acometendo o regime democrático.

Palavras-chave: Identidade Ibérica; Personalismo; Brasil; Democracia

RESUMEN

Este artículo compara los proyectos identitarios formulados por el ensayista peruano Francisco García Calderón (1893-1953) y el historiador brasileño Sérgio Buarque (1902-1982). Se analizarán las obras Las democracias latinas de América ([1912] 1979), de García Calderón y Raízes do Brasil (1936) de Sérgio Buarque. El tema central de estos textos es la búsqueda de la autenticidad en una sociedad en modernización. En este regreso a sus orígenes, ambos autores reservarían un lugar destacado al patrimonio íbero. Destacamos dos puntos: a) la construcción de una teoría de América en la que se repensaría el lugar de Brasil en Iberoamérica, y b) la centralidad que ambos ensayistas reservaron al personalismo como elemento formador de identidad. El artículo buscó resaltar los análisis presentados por los autores sobre el personalismo, que ofrecen ricas reflexiones sobre su inserción en la esfera política. Estos temas siguen presentes en Iberoamérica, afectando al régimen democrático.

Palabras clave: Identidad Ibérica; personalismo; Brasil; democracia

ABSTRACT

This article compares the identity projects formulated by the Peruvian essayist García Calderón (1893-1953) and the Brazilian historian Sérgio Buarque (1902-1982). The books Latin America: Its rise and progress ([1912] 1979), by García Calderón and Roots of Brazil (1936) by Sérgio Buarque will be analyzed. The central theme of these texts is the search for authenticity in a society that was modernizing. In this return to our origins, both authors would reserve a prominent place for Iberian heritage. We emphasize two points: a) the construction of a Theory of America in which Brazil’s place in Ibero-America would be rethought, and b) the centrality that both essayists reserved for personalism as an identity-shaping element. The article sought to highlight how much the analyzes presented by the authors, concerning personalism, offer rich reflections on its insertion in the political sphere. Themes that are still present in Ibero-America, affecting the democratic regime.

Keywords: Iberian identity; Personalism; Brazil; Democracy

Introdução

Quando examinamos a história intelectual dos países ibero-americanos, de pronto nos chama a atenção a preocupação com o legado que tolheria o progresso e o anseio de diversos intelectuais que buscaram transformar tal situação em direção a um regime democrático pleno e duradouro. Somado ao problemático legado de colônias, em meados do século XIX teorias pretensamente científicas, como as raciais, subjugaram ainda mais a imagem que tínhamos de nós mesmos, pois, segundo a doutrina, éramos etnicamente «inferiores», economicamente dependentes e politicamente imaturos.

Tal imagem era problemática em um mundo que se modernizava ao passo que, fatalmente, quem éramos ditaria os rumos de onde chegaríamos. Mudaríamos nossa índole para nos adaptar a um mundo capitalista e democrático ou a incapacidade era tanta que estaríamos fadados ao fracasso? Contrapondo-se a tais perspectivas, desenvolve-se em finais do século XIX, na «América Latina», uma produção ensaística que sustentava a ideia de que o problema não estava na identidade ibero-americana, e sim no tipo de modernização almejada até então. A democracia liberal e o utilitarismo não seriam os melhores caminhos para povos idealistas que primavam por relações fraternais.

Em resposta às teorias pretensamente científicas que estigmatizavam o ibero-americano, intelectuais como Francisco García Calderón e Sérgio Buarque de Holanda desenvolveram ensaios que intencionavam compreender nossas particularidades com intuito de evidenciar potencialidades civilizatórias. Sob essa perspectiva, a herança latina/ibérica, de legado problemático, passa a ser repensada por esses ensaístas como uma especificidade que, se bem compreendida e valorizada, poderia apontar um direcionamento a um mundo moderno construído não aos moldes da democracia liberal, mas sim, a um mundo mais humano2.

Dessa forma, em diálogo com a história comparada, o objetivo do presente artigo é fazer uma análise comparativa entre os projetos de identidade de dois intérpretes da realidade ibero-americana: o peruano Francisco García Calderón (1893-1953) e o brasileiro Sérgio Buarque de Holanda (1902-1982). De antemão, destaca-se que não há a intenção de restringir as análises a um recorte temporal que delimitasse a produção desses dois autores num mesmo momento histórico, pois, apesar de a estrutura interpretativa dos ensaístas serem semelhantes em diversos pontos, ela não é sincrônica, e sim diacrônica; ou seja, ela é processual, determinadas ideias da geração de Calderón chegam a Buarque e por ele são apropriadas3. À vista disso, ao invés de trabalhar com um recorte de tempo que sincronizasse cronologicamente a produção de Calderón e de Sérgio, buscou-se estruturas interpretativas que os aproximaram, gestadas, no entanto, em décadas distintas, mas ligadas a acontecimentos históricos4 que se relacionavam, fato que proporcionou a apropriação das ideias de Calderón por Sérgio Buarque.

Uma dessas apropriações ocorre após a leitura de «La originalidad intelectual de América»5, de García Calderón. Esse texto oferecera o andaime discursivo para duas estruturas interpretativas que tomariam consistência na principal obra de Sérgio Buarque: Raízes do Brasil6. A primeira estrutura seria a busca por uma autenticidade nacional que se fazia ibérica, e a segunda seria a comparação entre a América Portuguesa e América Espanhola7. Focaremos aqui na primeira estrutura interpretativa.

Como será discorrido no decorrer do artigo, em Calderón a herança ibérica é tópico central no debate sobre a questão da identidade ibero-americana, o culto ao valor pessoal -el individualismo- seria o principal traço da identidade do povo. Da mesma forma, Sérgio Buarque destacaria o personalismo como característica genuinamente ibérica, dispensando análises que muito se aproximam às de Calderón, principalmente se for considerado a primeira edição de Raízes. Portanto, é possível sugerir que a preeminência reservada ao personalismo deite raízes no interesse do jovem Sérgio Buarque pelas análises de Calderón, autor considerado por ele «um dos maiores pensadores críticos da América Espanhola» (Holanda, 1996, p. 35).

Para situar melhor as ideias dos ensaístas em questão, o presente artigo foi estruturado de forma que se possa conhecer brevemente os autores, suas principais obras e por fim seus projetos identitários. Projetos estes de cunho ibérico, nos quais o Brasil seria inserido na ideia de «América Latina» e o culto ao valor pessoal seria destacado como o principal traço representativo dos ibero-americanos.

Autor e Obra: O lugar do Brasil na América sob a ótica de Francisco García Calderón e de Sérgio Buarque de Holanda

Manuel Gálvez [...] cree que, ante la amenaza extranjera, sólo la guerra con el Brasil dará a su patria la unidad deseada [...] Este nacionalismo agresivo es condenable, porque, entre brasileños y argentinos, religión, raza y tradiciones son comunes. Pertenecen a la misma familia de naciones. Francisco García Calderón (1979)

Francisco García Calderón Rey8 nasceu em 1883 em Valparaíso, Chile, e faleceu em 1953 em Lima. Foi filósofo, escritor, historiador, diplomata peruano e diretor de La Revista de América (Paris), periódico que recebia colaborações de muitos escritores ibero-americanos. Foi considerado um dos maiores intérpretes da América Hispânica e herdeiro intelectual de Jose Enrique Rodó.

Autores como Raymond Poincaré, Émile Boutroux, Gabriel Séailles, Gonzalo Zaldumbide, Rufino Blanco Fombona e José Enrique Rodó escreveram notas elogiosas e prologaram diversas obras do autor peruano. Em 1904, escreveu seu primeiro livro, De litteris, e Rodó o apreciou com uma carta que se tornaria o prólogo de sua obra, «yo veo en él una de las mejores esperanzas de la crítica americana» (Rodó apud García Calderón, 1979, p. 322).

Calderón nasceu durante a Guerra do Pacífico9 (1879 e 1883). Seu pai, Francisco García Calderón Landa, até então presidente peruano, foi feito prisioneiro em Valparaíso por negar as condições de paz oferecidas pelo Chile, dentre elas uma cessão territorial. Em resposta, as autoridades chilenas «disolvieron el gobierno de Magdalena y embarcaron compulsivamente a su presidente con rumbo a Chile» (Sánchez, 1979). Segundo Luiz Alberto Sánchez10, mesmo nascendo em território chileno, Calderón recebeu todas as prerrogativas e direitos de um cidadão peruano. O governo do Chile criou diversos obstáculos para batizá-lo como peruano, contudo seu pai conseguiu ir até a Argentina, onde o menino foi apadrinhado por Domingo Faustino Sarmiento.

Estudou na Universidad Mayor de San Marcos, mas foi no Colégio Los Sagrados Corazones (Recoleta) que conheceu José de la Riva Agüero (1885-1944). Em sua juventude, Agüero, Luis Navarro Neyra, Ventura Calderón e José Gálvez se reuniam na casa de Calderón para discutir ideias de cunho nacionalista, e este último era o mentor do grupo. Agüero e Calderón mais tarde fariam parte da chamada generación del novecientos, ou geração arielista. As ideias arielistas influenciariam o jovem Sérgio Buarque, ao passo que García Calderón foi o primeiro autor citado pelo ensaísta brasileiro em seu artigo de estreia, Originalidade Literária (1920).

A geração arielista era formada por um grupo de pensadores peruanos que se ramificou do movimento modernista ibero-americano, em que, além de García Calderón e Riva Agüero, dela participavam seu irmão Ventura Calderón, Víctor Andrés Belaunde e José Gálvez. Eles promoveram um movimento de defesa aos valores da «hispanidade» e da identidade nacional frente aos perigos militares e culturais que os Estados Unidos poderiam oferecer. Calderón, em Las democracias latinas de América ([1912] 1979), sua principal obra, discute tais temáticas.

A escrita do autor peruano insere-se num momento em que o pan-americanismo era intensamente discutido, debate que ressoará em Las democracias11 e contribuirá para a construção de um projeto de identidade que perpassou os interesses nacionais12 em direção a uma análise interpretativa continental.

Teresa Dulci (2008) destaca que as Conferências Pan-americanas acontecidas em 1889, 1901, 1906, 1910, 1923, 1928, 1933,1938 e 1948 tinham como objetivo «a união das nações americanas por meio do fortalecimento político e do comércio na América» (Dulci, 2008, p. 20). De acordo com a autora, nessas conferências se destacavam dois tipos de discursos que, por sua vez, contrapunham-se: o pan-americanismo, encabeçado pelos Estados Unidos, e o panlatinismo, encabeçado pela Argentina. Ambos os países buscavam por meio de construções representativas seu quinhão na América, logo, intentavam desbancar a incômoda presença de seus principais rivais -Inglaterra e Brasil, respectivamente. Nesta disputa, Calderón toma sua posição em favor do espírito solidário e antiutilitarista ibero-americano. Las democracias latinas de América torna-se sua obra expoente, fazendo apologia à raça ibérica e à cultura latina em oposição aos costumes e interesses yankees.

Ocorre que nesta querela, a exclusão brasileira foi repensada pelo autor peruano. Logo, defendeu uma possível unidade étnica/cultural entre ibero-americanos. Sustentou a necessidade de um relacionamento mais fraternal entre as nações, propondo uma política de confederações, em que vintes repúblicas anárquicas tornar-se-iam sete países fortes. Dessa supracomunidade imaginada, o Brasil não ficaria de fora.

O americanista Leslie Bethell (2009), dissertando sobre o descaso entre América Portuguesa e América Espanhola, afirma que Les démocraties latines de l’Amérique foi uma das poucas obras que se propôs incluir o Brasil em um debate ibero-americano. Contudo, conforme Bethell, Calderón dispensou apenas um capítulo de dez páginas, fato que demostraria o lugar à margem reservado ao país quando comparado aos demais países ibero-americanos.

Os estudos clássicos das deficiências da América Espanhola, influenciados pelo darwinismo social e realizados pelos pessimistas em relação ao seu futuro -por exemplo, César Zumeta (Venezuela, 1860-1955), El continente enfermo (1899); Francisco Bulnes (México, 1847-1924), El porvenir de las naciones hispanoamericanas (1899); Carlos Octavio Bunge (Argentina, 1875-1918), Nuestra América (1903); Alcides Arguedas (Bolívia, 1879-1946), Pueblo enfermo (1909) -não tinham, é claro, nada a dizer sobre o Brasil. Francisco García Calderón (Peru, 1883-1953), Les démocraties latines de l’Amérique (1912), inclui um capítulo sobre o Brasil, mas um é capítulo de apenas dez páginas (Bethell, 2009, p. 300).

É necessário que se faça, no entanto, algumas ponderações quanto à generalização do descaso no tocante à sintética análise do Brasil feita por Calderón. A primeira parte de Les démocraties latines de l’Amérique (capítulos II, III e IV) trata de um histórico sucinto sobre alguns países ibero-americanos, e nele o Brasil é tratado realmente em apenas em dez páginas, assim como os demais países ibero-americanos. Contudo, o livro, a partir do capítulo V, é recortado por vários quadros comparativos e o Brasil é retomado nas discussões. Reaparece no diálogo referente às correntes filosóficas estrangeiras, concernente ao americanismo e ao imperialismo alemão. Além disso, o Brasil será novamente discutido em obras como La creación de un continente ([1913] 1979) e Ideas e impresiones (1919), por se tratar de um país que serviria de exemplo para os demais países ibero-americanos. Sendo assim, Calderón não integra o quadro de autores que, ao discutir a Ibero-América, excluíram o Brasil, pelo contrário.

Nessas obras, Calderón mostrou-se um profundo conhecedor da história colonial e imperial brasileira. Considerando as semelhanças em termos de religião, língua e raça entre Brasil e demais repúblicas hispano-americanas, Calderón afirmou que «nenhum outro continente oferece tão numerosas razões de unidade» (García Calderón, 1979, p. 187). Religião católica, língua de matriz latina, «raça» mestiça, eis aí as similitudes que uniriam esse povo, na concepção de Calderón.

Apontando para uma unidade étnica que já se processava na América, afirmou que o «El verdadero americano es el mestizo» (García Calderón, 1979, p. 196), e o Brasil era caso exemplar no que se refere à mestiçagem, fato que atraiu o interesse de Calderón. Contudo, o autor sustentava que a homogeneização somente se concretizaria quando as virtudes ibéricas, tidas por ele como as mais fortes, se sobrepusessem aos atavismos indígenas.

el mestizo primario es inferior al progenitor europeo, pero a menudo superior al ancestro indígena [...] El mestizo, producto de un primer cruce no constituye un producto utilizable para la unidad política y económica de América porque conserva los defectos del indígena: es desleal, servil y a menudo haragán (García Calderón, 1979, p. 197).

Se a visão de Calderón é desalentadora para com os indígenas, para com os negros é pior ainda. Embasou suas análises em determinadas teorias raciais desenvolvidas por Charles H. Pearson e Carlos Octávio Bunge13, por isso identificou o mulato como raça vil e ambiciosa. O Haiti e determinados estados do Brasil (Nordeste) foram considerados locais de intensa violência e anarquia, portanto, para o autor a imigração europeia deveria ser considerada.

Pearson escribe que [...] Brasil caería pronto en poder de los negros mientras que los indios se desarrollarían en las inaccesibles regiones del norte, por lo tanto, y del centro y los blancos, acosados por los progresos de estas razas, se replegarían en las ciudades y en las regiones salubres. Esta penosa profecía se habría realizado si, en la lucha de razas, la población blanca no hubiera sido robustecida por la llegada de nuevos colonos (García Calderón, 1979, pp. 199-200).

A tradição latina, representada pela religião católica, pela língua herdada de Roma e pelas ideias políticas importadas da França, compatibilizava-se com a raça ibérica. Por isso, Calderón conclamou uma unidade de raça, a ibérica, e de tradições culturais, a latina, em oposição ao outro, o anglo-saxão. Logo, assim como a Hispano-América, o Brasil era um país mestiço, virtuosamente ibérico, de cultura latina, onde ódios recíprocos não mais se sustentavam, pois brasileiros e hispano-americanos pertenciam à mesma família.

Compartilhando a mesma cultura e raça, os desentendimentos deveriam ser deixados de lado em prol de uma comunidade ibero-americana, por isso critica autores nacionalistas como Manuel Galvéz. Para este, o patriotismo argentino seria facilmente alcançado ao instigar-se uma guerra contra o Brasil. «Manuel Galvéz [...] cree que, ante la amenaza extranjera, sólo la guerra con el Brasil dará a su patria la unidad deseada, [...] Este nacionalismo agresivo es condenable, porque, entre brasileños y argentinos, religión, raza y tradiciones son comunes» (García Calderón, 1979, p. 265).

No que se refere ao fato de o Brasil não sofrer as investidas expansionistas norte-americanas como os países da América Central, ou de ser cúmplice dos Estados Unidos, Calderón esquiva-se das acusações. Em Las democracias, não faz sequer uma crítica ao apoio brasileiro, pelo contrário, relaciona o sofrimento infligido pelo imperialismo norte-americano à América Hispânica ao imperialismo alemão14 sofrido pelo Brasil. Sendo assim, o expansionismo alemão no sul do Brasil e o imperialismo yankee sobre a América Central foram tidos pelo autor como fator de união entre América Portuguesa e Espanhola ante o invasor, seja ele o vizinho indesejável do Norte, seja ele o imigrante teutônico de ultramar.

Antônio Candido, em Os brasileiros e a literatura Latino-Americana (1981), afirma que elementos comuns como o passado colonial, imitação das tendências francesas e até mesmo o imperialismo permitiram «refletir sobre a cultura e a literatura da “América Latina” como “um conjunto”» (Candido, 1981, p. 60). Uma comunidade ibero-americana assim foi construída tendo em mente determinadas «zonas de coincidências». Em Calderón, as diferenças entre América Portuguesa e Espanhola são condensadas e tornam-se semelhanças. O ensaísta destaca que o idioma espanhol e português são de mesma matriz: a latina; brasileiros e hispano-americanos compartilham o mesmo tronco racial: o ibérico; ideias francesas são importadas por ambas Américas, assim como ambas compartilham o mesmo passado colonial e perigo imperialista.

Além de tentar inserir o Brasil na ideia de «América Latina», traçando semelhanças, desenvolveu também análises sobre a influência pedagógica, política e econômica brasileira sobre seus vizinhos, e por fim salientou que o país teria uma função quase titânica: o Brasil, dado a sua característica fraternal e por ser uma das nações ibero-americanas mais próximas aos Estados Unidos, cumpriria a função moral de «americanizarlo». «Si los Estados Unidos “americanizan” el mundo, según la frase de Mr. Stead, ¿por qué no han de “americanizarlo” también en sentido análogo, las jóvenes democracias del Sud?» (García Calderón, 1979, p. 304).

De posse de tais considerações, não se pode negar o aspecto conservador do pensamento de Calderón, nem se pretende fazer apologia à sua mensagem valorativa referente à cultura ibero-americana. Sustenta-se, no entanto, que Las democracias apresenta análises importantes que foram produzidas em conexão com os problemas e conflitos ideológicos de sua época, bem como exprime contribuições para o campo da historiografia, ao passo que o projeto de identidade defendido pelo autor buscava inserir o Brasil na ideia de «América Latina» já em 1912, atitude não muito comum entre os intelectuais brasileiros e hispano-americanos. Além disso, como o artigo apontará, suas análises referentes à identidade ibérica seriam apropriadas e trabalhadas por Sérgio Buarque de Holanda, autor que se tornaria um dos maiores intérpretes da realidade nacional brasileira.

Sérgio Buarque de Holanda15 nasceu em São Paulo em 1902 e faleceu em 1982, vítima de complicações pulmonares. Formou-se em direito no Rio de Janeiro, foi jornalista, sociólogo e historiador. Na década de 1920 publicou diversos estudos sociológicos, ensaios e críticas literárias. Participou do movimento modernista de 1922 e fundou a revista Estética, junto com Prudente de Morais Neto, em 1924. Em 1936, tornou-se professor de História do Brasil na Universidade do Distrito Federal. Entre 1937 e 1944 foi chefe da sessão de publicações do Instituto Nacional do Livro, e diretor de divisão da Biblioteca Nacional até 1946. Também foi presidente da Associação Brasileira de Escritores. Em 1956, participou como professor da FFCL-USP na Cadeira de Civilização Brasileira, sendo efetivado dois anos depois. De 1962 a 1964 assumiu a direção do Instituto de Estudos Brasileiros.

Em 1930, Sérgio Buarque trabalhou em Berlim como enviado especial dos Diários Associados à Alemanha, Polônia e Rússia. Durante sua estadia na Alemanha interessou-se ainda mais por temáticas em torno do campo da história e das ciências sociais. Quando regressou, trouxe várias anotações que utilizou em seu ensaio Raízes do Brasil, publicado em 1936. Além de Raízes, escrevera diversas obras que contribuem para o conhecimento da história nacional. Apesar de seu primeiro livro tornar-se tão polêmico, ofuscando injustamente suas obras posteriores, elas merecem também o devido destaque, pois revelam um historiador profissional, atento às fontes e às análises que delas se desdobrariam. Dentre tais obras citamos: Cobra de Vidro (1944), Monções (1945), Caminhos e Fronteiras (1957), Visão do Paraíso (1958), Do Império à República (1972) e Tentativas de Mitologia (1979).

O autor percorreu um longo caminho político que muito contribuíra para seu aprimoramento intelectual, principalmente no que diz respeito à temática da democracia. De uma edição princeps de caráter autoritária, fez diversas alterações que, segundo Feldman, tornaram Raízes um clássico por amadurecimento16.

O amadurecimento intelectual e político do autor, provenientes de um contexto em que a democracia é extensivamente discutida e almejada, explicam as alterações que Buarque imprimira em Raízes do Brasil. O amadurecimento dá-se pela trajetória do autor, fato que corrobora o teor conservador da primeira edição. Limitando-se aos autores hispânicos citados por Buarque na década de vinte e na edição princeps, nota-se que tais ensaístas -Calderón, Vargas Vila, Rodó, Agüero- preteriam os princípios modernos ante as tradições latino/ibéricas, assim como possuíam uma visão cética quanto à implantação de um tipo de democracia cujas bases tivessem como mote a participação popular.

Se Las democracias de Calderón foi gestada num momento em que a discussão panamericanista estava em voga, o ensaio Raízes do Brasil foi publicado em 1936, em plena Era Vargas, período fecundo no que se refere às discussões sobre a formação da nacionalidade. Logo, Calderón imprimiu um olhar mais amplo à sua Teoria da América, apresentando um projeto representativo de caráter supracontinental, enquanto Buarque recorreu à América Hispânica para entender melhor o Brasil, circunscrevendo a pesquisa, demarcando uma identidade genuinamente nacional. Traçou para tanto um quadro comparativo, estabelecendo diferenças e similitudes entre América Portuguesa e Espanhola. Do rol das diferenças, Buarque criaria dois tipos: o semeador e o ladrilhador.

Em Raízes, o autor destacou diferenças: a) entre as cidades desordenadas brasileiras e as muito bem planejadas cidades da América Espanhola: «Já a primeira vista, o próprio traçado dos centros urbanos na América Espanhola denuncia o esforço [...] No Brasil, [...] o certo é que jamais alcançou uniformidade [...] nenhum rigor, nenhum método» (Holanda, 1936, pp. 61-62); b) entre o processo de feitorização e colonização: «Comparada à colonização espanhola, as obras dos portugueses distinguiram-se pela predominância de seu caráter exploratório comercial» (Holanda, 1936, p. 66); c) entre o «esboço cooperativo» dos espanhóis e a sua ausência nos portugueses: «Nada entre nós existia de comparável ao que um historiador peruano nos refere a respeito da prosperidade dos grêmios [limenhos]» (Holanda, 1936, p. 30) e d) entre o descaso administrativo da corte portuguesa e a rigidez das leis espanholas: «Em nosso próprio continente a colonização espanhola caracterizou-se largamente pelo que faltou à portuguesa: por uma aplicação insistente em assegurar o predomínio militar, econômico e político da metrópole sobre as terras conquistadas» (Holanda, 1936, p. 60). Caso digno de nota é que Sérgio Buarque constata as dessemelhanças entre espanhóis e portugueses, mas diferente de muitos autores brasileiros, não enaltece as peculiaridades portuguesas; o semeador (português) é simplesmente diferente do ladrilhador (espanhol), não melhor. Desenvolve assim uma Teoria Comparativa da América para demarcar singularidades nacionais, sem resvalar para discursos preconceituosos de cunho nacionalista.

Quanto às similitudes, Sérgio Buarque buscou uma peculiaridade que se tornou o foco de sua pesquisa: o personalismo. Singularidade que, como se vê na edição princeps de Raízes, toma um sentido positivo, ao ponto de a democracia ser preterida em prol do personalismo.

Além das similitudes raciais, linguísticas e religiosas apontadas por García Calderón, é importante destacar que para ele o individualismo ibérico herdado tanto por brasileiros quanto por hispano-americanos era o principal fator de similitude, portanto fator de pertencimento. Já Buarque, apesar de defender que o personalismo era a única peculiaridade compartilhada, destaca que essa singularidade não era capaz de sustentar uma identidade nacional, quanto mais continental. Isso porque o personalismo era uma especificidade que, por suas características individualistas, obstava a consecução de uma solidariedade nacional. O fato é que o principal traço ibérico é na verdade uma peculiaridade que não cria um sentimento de unidade em sentido amplo, pelo contrário, cria um tipo de solidariedade aparente, restrita, fomenta a anarquia, como será apontado a seguir. Portanto, para Buarque, ao contrário de Calderón, o caminho para uma identidade ibero-americana que o personalismo poderia indicar é abortado por suas próprias características individualistas.

Culto ao valor pessoal: o personalismo em Buarque e el individualismo em Calderón

El individualismo es la nota fundamental da de la psicología española. Francisco García Calderón(1979)

É que nenhum desses vizinhos soube desenvolver a tal extremo essa cultura da personalidade, que parece constituir o traço mais decisivo na evolução da gente hispânica, desde tempos imemoriais. Sérgio Buarque de Holanda(1936)

A discussão sobre a herança ibérica foi assunto recorrente entre os intelectuais ibero-americanos, e os traços psicológicos do povo foram apontados como um dos fatores impeditivos para a formação de uma identidade cívica, aos moldes da civilização liberal europeia ou norte-americana.

Tendo em mente o porvir, tanto Calderón quanto Buarque destacaram a importância de valorizar as próprias raízes. Nesse retorno às origens, ambos os autores elegeram a herança ibérica como fator de autenticidade nacional/supranacional. O culto ao valor pessoal seria a principal característica ibérica, discutida em Calderón por meio do termo el individualismo e em Buarque através do termo personalismo.

É possível sugerir que a preeminência reservada ao personalismo por Sérgio Buarque seja uma das apropriações que o autor de Raízes fizera ao ler Calderón, principalmente se levar em consideração a edição princeps.

Para Calderón, o individualismo seria um traço notavelmente ibérico. El individualismo transformava toda «historia em epopeya», criava nas pessoas «una ardiente voluntad de dominación», fomentava «el espítitu aventurero» e «el aislamento», e por fim tornava o indivíduo hostil a forças externas, inclusive ao «rigor de la ley».

El individualismo es la nota fundamental de la psicología española. Rasgo ibérico, tiene la fuerza de un imperioso atavismo. Exalta todas las formas de acción, de afirmación del ser e inspira una confianza desmedida en la propia fuerza; tiende a desarrollar la energía humana, a defender la independencia nacional contra cualquier presión externa, contra el rigor de la ley, la moral imperativa, el deber inflexible; crea en las almas exaltadas, una ardiente voluntad de dominación. [...] el valor personal que transforma la historia en epopeya. La audacia, el espíritu aventurero, el aislamiento, son formas de exaltación personal (García Calderón, 1979, p. 9, grifo nosso).

El individualismo era um atavismo compartilhado por portugueses e espanhóis, mas em graus diferentes «Puede decirse que los portugueses conquistadores se parecían a los españoles por su individualismo y su espíritu aventurero. Eran menos fanáticos, quizás porque no tuvieron que luchar contra los enemigos de su fe» (García Calderón, 1979, p. 8, grifo nosso).

Assim como Calderón, Buarque destaca o personalismo como um traço constitutivo da originalidade nacional dos povos ibéricos. Peculiaridade que os diferenciaria dos demais europeus, logo, o culto ao valor pessoal era o «traço mais decisivo na evolução da gente hispânica, desde tempos imemoriais» (Holanda, 1936, p. 5). Para portugueses e espanhóis «o índice do valor humano infere-se antes de tudo da extensão que não precise depender dos demais [...] em que se baste. Cada qual é filho de si mesmo, de seu próprio esforço, de suas virtudes» (Holanda, 1936, p. 5).

Um ponto relevante a destacar-se é a interpretação positiva compartilhada por ambos os autores no que se refere ao personalismo. Tanto Calderón quanto Buarque entendem o culto ao valor pessoal como um traço de identidade própria que certamente possuía os seus problemas, mas paradoxalmente encontram nele diversos outros pontos favoráveis à manutenção da ordem. Os autores mobilizaram aspectos do personalismo, entendidos por eles como positivos, para melhor defini-lo e defendê-lo. Respectivamente, para Calderón e Buarque, o personalismo caracterizava-se pelo (a): a) «instinto igualitário contrário a la jerarquía» e pelo «horror à hierarquia», b) «voluntad de dominación» e gosto pelo mando, e c) «espíritu aventurero» e a ética da aventura.

Sob a perspectiva iberista, as categorias personalistas mobilizadas são importantes, ou pelo menos necessárias ante a desordem política e social ibero-americana. O horror à hierarquia abriria possibilidade para a democracia; o mando, personificado na ação de um grande caudilho, no caso de García Calderón, ou na ação das oligarquias e «personalidades prestigiosas», no caso de Buarque, traria estabilidade social, e a ética da aventura tornou possível a empreitada colonizadora.

Nesse sentido, em Calderón o individualismo é trabalhado como uma das peculiaridades responsáveis pelo desenvolvimento nacional. «En la riqueza de este desarrollo nacional, persisten esenciales caracteres de la raza que es menester fijar: el individualismo, la democracia, el espíritu local receloso de vastas unidades» (García Calderón, 1979, p. 9).

Em Calderón, a modernização toma centralidade sem igual, contudo, sua efetivação estava balizada pela manutenção das tradições ibéricas que, para o autor, ao contrário de Sérgio Buarque, era totalmente compatível com a democracia. Isso porque, para o ensaísta peruano, existiam dois tipos de democracia: a do Norte, impessoal e participativa, portanto incondizente com a índole anárquica ibero-americana, e a do Sul, paternal, ou seja, disciplinadora, mas generosa. A democracia no Sul concretizar-se-ia mediante a ação de chefes paternais -grandes caudilhos- que cumpririam a função de investir na urbanização, na industrialização, na educação e, consequentemente, «nivelariam» a sociedade. Os «pais da democracia» acabariam com a instabilidade ocasionada pelos partidos liberais. Juan Manuel Rosas, Mariano Melgarejo, Porfírio Diaz calariam as vozes dos pequenos caudilhos que insistiam em invadir a coisa pública e por fim, seriam verdadeiros «pais» para o povo, cedendo direitos sociais, mas obstando a inserção política, por considerá-los incapazes.

El progreso material es obra de la autocracia: testigo de ello las dictaduras de Rosas, Guzmán Blanco, Portales, Porfirio Díaz. Los grandes caudillos abandonaban toda abstracción: su mente realista los llevaba a estimular el comercio, la industria, la inmigración y la agricultura. Al imponer una paz duradera, favorecían el desarrollo de las fuerzas económicas (García Calderón, 1979, p. 42).

Renato Martins destacou que o tipo de americanismo defendido por Calderón para a América Latina se pautava na implementação de «democracias constituídas por um executivo forte, parte deste sendo preenchido por uma elite de intelectuais» (Martins, 2019, p. 248). Nesse sentido, a noção de democracia latina em Calderón norteia-se na ideia de controle da desordem mediante a ação de um chefe forte, mas «generoso». Logo, a tradição ibérica seria essencial para consecução de governos democráticos, haja vista que, na visão do autor, um vínculo paterno condizia bem com um povo individualista que não aceitava bem hierarquias, a não ser daquele que se provava respeitável. Em sua concepção, caudilhos paternais calariam as vozes anárquicas dos pequenos caudilhos e dariam ouvidos a «las voces oscuras del Pueblo». Isto é, para ele, a liberdade e a participação popular não eram opções para um governo democrático. O autor, então, enfatiza a necessidade de um caudilho providencial que democratizaria a sociedade, nivelando os homens.

Também para Sérgio Buarque, em 1936, o personalismo é uma peculiaridade positiva e fator de estabilidade social.

Entre nós, já o dissemos, o personalismo é uma noção positiva - talvez a única verdadeiramente positiva que conhecemos. Ao seu lado todos os lemas da democracia liberal são conceitos puramente decorativos, sem raízes profundas na realidade. Isso explica bem como nos países latino-americanos, onde o personalismo -ou mesmo a oligarquia, que é o prolongamento do personalismo no espaço e no tempo- conseguiu abolir as resistências da demagogia liberal, acordando os instintos e os sentimentos mais vivos do povo, tenha assegurado, com isso, uma estabilidade política que de outro modo não teria sido possível (Holanda, 1936, p 52).

Se para Calderón um Grande Caudilho era necessário ante a desordem social, para Buarque um governo constituído em torno da oligarquia ou de «personalidades prestigiosas» era compatível com a índole personalista brasileira.

Para Sérgio Buarque, especificamente em 1936, o povo ainda não se encontrava maduro o suficiente para exercer seus direitos políticos, ou sequer via a necessidade disso, pois confiavam inteiramente naqueles que «falavam por eles». As notas elogiosas à elite imperial -uma espécie de modalidade da simpatia de Sergio Buarque pela oligarquia (Waizbort, 2011, p. 47)- oferecem indícios das preferências do autor por formas de governos fundamentadas no personalismo.

Mas quando as leis acolhedoras do personalismo são resguardadas por uma tradição respeitável, ou não foram postas em dúvida, ele aparece livre de disfarces. É notório que no tempo da monarquia os jornais e o povo criticavam com muito mais aspereza a Câmara dos Deputados, eleita pelo povo, do que o Senado, cujos membros eram escolhidos pelo Imperador (Holanda, 1936, p. 153, grifo nosso).

O personalismo seria uma peculiaridade chave, pois nele mobilizam-se categorias importantes que resultariam na tão almejada estabilidade, respeitando a psiquê nacional. Herdamos dos países ibéricos, primeiramente, o gosto pelo mando -característico de uma gente com ínfulas de nobreza, consequentemente anárquica- e, paradoxalmente, também recebemos como legado certa propensão à obediência cega, «virtude suprema entre todas». Entre os povos ibéricos, «a vontade de mandar e de cumprir ordens são-lhes igualmente peculiares. As ditaduras e o Santo Ofício parecem constituir formas tão típicas de seu caráter como a inclinação à anarquia e à desordem» (Holanda,1936, p. 14).

Na concepção buarqueana, a obediência tornava-se real ante a um princípio concreto, um indivíduo de carne e osso. Partidos e ideais imparciais não satisfazem o ímpeto ibero-americano por proximidade, daí a importância que se reserva muito mais ao chefe do executivo do que aos demais poderes -ao legislativo principalmente.

A obediência poderia fazer-se patente pela força, mas era preferível que se manifestasse pela complacência, ao passo que a tirania e medidas violentas eram incompatíveis com a docilidade do caráter nacional -leia-se cordialidade. O fato é, que graças à obediência, a autonomia do indivíduo personalista seria disciplinada.

Segundo Feldman, «[a] respeitabilidade guardava estreita relação com a obediência, que, nos países de cultura personalista, é a única forma de sujeição dos indivíduos ao bem comum» (Feldman, 2016, p. 91) A estabilidade social só seria alcançada com a renúncia ao individual, sendo a obediência uma forma de renunciar à própria vontade, pois no íntimo, quem obedece dificilmente o faz porque quer, mas porque é impelida por um sujeito de autoridade, a subordinação abre caminho para a tão sonhada estabilidade, sem sair dos marcos da tradição personalista. Com a obediência não seria necessário que o indivíduo se submetesse à civilidade, na qual lutaria para frear seus próprios interesses particulares em vista de um bem maior. Ao contrário, a submissão seria efetuada por uma força externa.

À autarquia do indivíduo, à exaltação extrema da personalidade [...] só pode haver uma alternativa: a negação e a renúncia a esta personalidade em vista de um bem maior. Por isso mesmo que rara e difícil, a obediência aparece, por vezes, entre os povos ibéricos como virtude suprema entre todas. E não é estranhável que essa obediência -obediência cega, e que difere do ideal germânico de lealdade- tenha sido até agora para eles o único princípio político verdadeiramente forte (Holanda, 1936, p. 14).

A submissão limitaria a autarquia do indivíduo, contudo, sob essa perspectiva, a democracia liberal passaria longe. Isso porque os dois polos imprescindíveis para consecução de governos liberais democráticos -representantes que primassem pela impessoalidade e representados que se autorregulassem- eram frutos inexistentes e até contrários à cordialidade e ao personalismo ibérico. Em outras palavras, um indivíduo cegamente obediente e receoso de apoiar-se em si mesmo, fatalmente não resultaria em um bom cidadão aos moldes da democracia liberal. Assim como o setor que, recentemente, deslocava-se das fazendas para os cargos políticos -a família patriarcal- não era bom exemplo no que se referia à distinção entre interesses domésticos e públicos. Nepotismo, troca de favores, corrupção e compra de votos eram o resultado da invasão dos interesses particulares sobre a coisa pública.

Segundo Buarque, D. Pedro II foi a «personalidade prestigiosa», o líder paternal que teve a proeza de «harmonizar» o quadro político. O imperador soube despertar no povo e na oligarquia a obediência necessária para limitar os anseios personalistas e indisciplinados da nação. O povo, que reconhecia a «respeitabilidade» do Imperador e daqueles que ele escolhia para compor o governo, tinham, na verdade, mais confiança nas escolhas de D. Pedro do que nas próprias escolhas.

Como se pode perceber, governos personalistas eram considerados pelo autor como «uma força positiva» e necessária ante o avanço do liberalismo e da democracia. A apologia à perda das tradições ibéricas não era ainda a mensagem do autor em 1936, quando publicou Raízes do Brasil.

Segundo Feldman, na edição princeps, a mensagem básica de Sérgio Buarque «é de que o Estado não podia realizar seu potencial se negasse esse legado [tradição colonial]» (Feldman, 2016, p. 84). O Estado, ao negar a cultura personalista, renunciaria «ao nosso próprio ritmo espontâneo» enganando-se «por um compasso mecânico e uma harmonia falsa» (Holanda, 1936, p. 161). Leopoldo Waizbort (2011) já apontava as predileções conservadoras buarqueanas e o elogio ao personalismo seria apenas uma delas. «A solução preconizada por Sérgio Buarque, portanto, é de um princípio de autoridade fundado no personalismo. Suas concretizações são a oligarquia e, caso esta não tenha força suficiente, a tirania» (Waizbort, 2011, p. 45). Tal posicionamento autoritário, tomado pelo autor na primeira edição de Raízes do Brasil, relaciona-se ao contexto antiliberal dos anos trinta.

a democracia não era aspiração muito generalizada no Brasil e no mundo quando da primeira edição do livro, em 1936. Pelo contrário, a década de 1930 foi dominada pela reação ao que Karl Polanyi denominou «civilização liberal», cujo apogeu ocorreu antes da Primeira Guerra Mundial. A crise de 1929 encerrou todas as possibilidades de preservar a «civilização liberal» e favoreceu as reações políticas a que nos referimos, em geral divergentes em relação à democracia (Sallum Júnior, 2012, p. 50).

Nas décadas de vinte e trinta, Sérgio Buarque dialogava com autores autoritários, não só hispano-americanos, mas também com intelectuais europeus de tendência conservadora como «Schmitt, Spengler, Nietzsche, Keyserling, Breysig» (Waizbort, 2011, p. 55). Douglas Carvalho Ribeiro (2018) apontou as raízes antiliberais de Sérgio Buarque, destacando as apropriações feitas ao pensamento de autores como Carl Schmitt. Segundo Ribeiro, «[a] primeira edição [...] é marcada pela apropriação de diversos autores antiliberais, que, a partir da constatação da singularidade cultural brasileira, auxiliavam na formulação de um arranjo institucional compatível ao substrato da cultura» (Ribeiro, 2018, p. 2).

A partir da segunda edição de Raízes, a perspectiva otimista reservada ao personalismo e o diálogo com autores antiliberais são postos em xeque, e para tanto, o contexto pós-segunda guerra mundial e a rede comunicação intelectual compartilhada pelo autor, nos anos quarenta e cinquenta, dizem muito sobre os expurgos ou atenuações que fizera às ideias autoritárias. André Furtado (2018) lembra que «os ajustes que Sérgio Buarque operou junto a Raízes do Brasil até este período [1957], processaram-se em simultâneo às discussões da UNESCO» (Furtado, 2018, p. 341). Um dos principais tópicos de discussão promovidos por essa instituição foi a inserção popular no enredo político. Sendo assim, o próprio autor apontou o seu desconforto com a obra original.

Desconforto grande e perturbador, a ponto de exigir um remanejamento substantivo do texto para a segunda edição, de 1948 -portanto em pleno período de «redemocratização»-, remanejamento que tem como principal questão melhor solucionar (ou embaralhar) a perspectiva política contida na argumentação original (Waizbort, 2011, p. 40).

Imerso em um contexto em que os preceitos democráticos estavam sendo debatidos e defendidos, Sérgio Buarque imprime outro olhar ao personalismo e passa a enxergá-lo como um entrave à implantação da democracia. De acordo com Feldman, o Estado «em vez de pecar por escamotear a tradição, [...] passa a ser culpado de obstar a modernização» (Feldman, 2016, p. 85). Na segunda edição de Raízes, a outrora importância do personalismo é relativizada e a sua eficácia para manter a estabilidade social se torna aparente.

É inegável que em nossa vida política o personalismo pode ser em muitos casos uma força positiva e que ao seu lado os lemas da democracia liberal parecem conceitos puramente ornamentais ou declamatórios, sem raízes fundas na realidade. Isso explica como, entre nós e, em geral, nos países latino-americanos, onde quer que o personalismo -ou a oligarquia, que é o prolongamento do personalismo no espaço e no tempo- conseguiu abolir as resistências liberais, assegurou-se, por essa forma, uma estabilidade política aparente, mas que de outro modo não seria possível (Holanda, 2016, p. 323, grifo nosso).

Ao contrário de Buarque, em Calderón a interpretação positiva referente ao individualismo permanece. Segundo o autor peruano, o ibérico, personalista como era, receava-se de toda e qualquer hierarquia, a não ser a de um Cézar Democrático. Calderón reconhece que esse amor à liberdade e terror à hierarquia tornavam-se problemáticos em um regime republicano, contudo, o próprio autor apontou a necessidade de instituições disciplinadoras e homens providenciais: a igreja católica e a pujança de Cézar. Esses seriam instrumentos de ordem, cujas ações corretivas e paternais compatibilizavam-se com a índole da raça ibérica. Nesse sentido, para o autor, a «tutela» de um Cézar e o «instinto igualitário» da população ibero-americana eram aspectos positivos do personalismo que, fatalmente, apontaria caminhos para a modernização.

Temos que ter em mente que Calderón primava por um projeto de modernização focado na realidade, que respeitasse a herança ibérica, defendendo um estilo de democracia diferente daquela alentada pelos yankees. O autor aspirava pelo afastamento político das oligarquias, primava por investimentos em ferrovias, em indústrias, contudo, sempre sob o olhar zeloso do Cézar. Calderón preconizava um modelo de modernização iberista. «Los gobiernos que se aseguran la paz, los tiranos paternales son por lo tanto preferibles a los demagogos» (García Calderón, 1979, p. 206).

Já Buarque faz dois movimentos em busca da compreensão e da modernização nacional. O primeiro, levando em consideração a recusa da democracia -edição princeps-, o segundo, tomando como ponto de chegada a democracia -edição de 1948. Logo, considerando a afirmação de Ângela de Castro Gomes de que a «saída depende sempre do lugar onde se deseja chegar» (Gomes, 1998, p. 503), destaca-se que na concepção de Buarque a continuidade ou o expurgo da herança ibérica dependeria do tipo de sociedade vislumbrada. Caso o fim almejado fosse uma sociedade democrática; a cordialidade e o personalismo deveriam ser extirpados. Se a finalidade fosse a manutenção das relações pessoais, a conservação de tais legados tornar-se-iam viáveis mediante o governo de «personalidades prestigiosas».

Conclusão

No transcorrer do artigo, por meio da análise das principais obras de García Calderón e de Sérgio Buarque, verificou-se o enfoque iberista que deram às suas Teorias da América -respectivamente, Las democracias latinas de América (1912) e a edição princeps de Raízes do Brasil (1936). Para ambos os autores, as tradições ibéricas tornavam o povo ibero-americano singular e a sua valorização direcionaria o rumo político das nações. Por sua vez, o seu avesso, ou seja, a cópia de ideias e instituições contrárias às tradições ibéricas, minavam a autenticidade, e por isso a importação dos preceitos liberais fora censurada. No enredo das críticas aos preceitos importados, a democracia foi alvo de discussão. Para os ensaístas em questão, a herança ibérica e a democracia liberal eram incompatíveis, logo a tentativa de sua implantação em terras ibero-americanas seria um lamentável mal-entendido.

Tanto Calderón quanto Buarque pensaram a relação entre Novo e Velho mundo, considerando o legado ibérico como um elemento basilar que orientaria a modernização, não aos moldes da democracia liberal e do capitalismo, mas sim, segundo um sistema marcado pelas relações humanas. Portanto, os preceitos liberais -utilitarismo, civilidade, impessoalidade, democracia- por negarem o gênio ibérico, deveriam ser preteridos, em favor de um estilo de governo orgânico. Governos paternais eram compatíveis com a índole anárquica e fraternal ibero-americana. García Calderón defendeu a necessidade de grandes caudilhos, como Juan Manuel Rosas, Porfírio Diaz, Mariano Melgarejo, e Sérgio Buarque a de «personalidades prestigiosas» como D. Pedro II.

Apesar do teor conservador de Las democracias e de Raízes (1936), é inegável a contribuição dessas obras para a historiografia. As temáticas são atuais, visto que os problemas apontados pelos autores ainda se fazem presentes na América. Além disso, como destaca Newcomb (2012, p. 705), os intelectuais brasileiros sempre tiveram um olhar direcionado para o próprio país, demostrando tanto descaso pela Hispano-América que, reiteradamente, enfatizavam as diferenças17 entre luso-americanos e hispano-americanos, preterindo as semelhanças.

É patente que ao final do século XIX e início do século XX, os intelectuais brasileiros pouco se interessavam pela história, política e literatura de seus vizinhos, e se pode dizer que a indiferença era mútua. Este desapreço entre Américas foi criticado pelo argentino Martín García Mérou (1900) e pelo brasileiro José Veríssimo (1986). Mérou e Veríssimo apontaram a necessidade de um eficaz intercâmbio cultural entre o Brasil e demais países hispano-americanos, ao passo que essa indiferença resultava em perda para nações que compartilhavam histórias e problemas semelhantes18. Por isso, é caso digno de nota o interesse nutrido por García Calderón e Sérgio Buarque. É possível concluir que o apreço de Sérgio Buarque pela Hispano América e a estima de Calderón pelo Brasil muito contribuíram para a formulação da Teoria da América proposta por ambos os autores. Os ensaístas apropriaram-se da literatura que circulavam no continente e imprimiram a sua marca interpretativa. Calderón destacar-se-ia por incluir o Brasil na ideia de América, enquanto Sérgio Buarque evidenciaria as peculiaridades brasileiras ao compará-las às especificidades hispano-americanas, discutindo as semelhanças e diferenças de maneira imparcial. Além disso, tornar-se-ia um dos maiores intérpretes da realidade nacional ao relacionar a possibilidade da democracia à perda da herança ibérica, mensagem que fora remodelada com o tempo.

Agradecimientos

Agradecimiento al equipo editorial de la revista y a los revisores por las importantes contribuciones para la mejora del texto.

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1O presente artigo é um desdobramento de minha tese de doutorado intitulada: Nuestra, Nossa & the Other America: A identidade ibero-americana e a democracia, nas obras de Francisco García Calderón e Sérgio Buarque de Holanda.

2Para os autores em questão, um mundo mais humano refere-se a uma sociedade sensível às tradições ibero-americanas. Nessas sociedades, as relações cordiais pautam-se não somente em ações fraternais entre nações, mas também em vínculos pessoais que se estendem para as esferas econômica e política. Buarque, por exemplo, descreve o espanto de estrangeiros ao saber que para conquistar um cliente no Brasil, antes é necessário fazer dele um amigo (Buarque, 1936, p. 95). No que se refere à esfera política, líderes carismáticos cativam e satisfazem muito mais aos povos de índole ibérica. Eles tendem a preferir relações sociais pautadas na proximidade, ao passo que o convívio humano é de base emocional. Tal perspectiva de mundo contrapõe-se ao ideal do mundo moderno atual, pois choca-se com a imparcialidade inerente dos princípios democráticos e com a competitividade capitalista.

3Ao tratar sobre a representação, estrutura diacrônica e eventos, Koselleck (2006) aponta que «a sucessão de gerações [...] podem favorecer a geração de conflitos ou a legitimação da tradição» (Koselleck, 2006, p. 136). Por isso, destacamos que o ideal compartilhado pela geração arielista, o qual Calderón fazia parte, ressoou e foi legitimado por Sérgio Buarque de Holanda em suas primeiras obras.

4Koselleck também afirma que «as estruturas não são grandezas “extra temporais”, pelo contrário elas adquirem um caráter processual —que podem também se integrar às experiências dos eventos» (2006, p. 136). Tanto Calderón quanto Buarque estão respondendo a uma mesma experiência histórica: ao imperialismo norte-americano. Contudo, Calderón remete sua discussão arielista aos anos de 1910 e Buarque aos anos de 1920, assim como modificam suas percepções sobre a política de relacionamento entre Américas implantada pelo Estados Unidos. Calderón elogia o Wilsonismo (1920) e Sérgio Buarque a política de boa vizinhança (1933-1945).

5«La originalidad intelectual da América» é um dos artigos que integra a obra Ideas e impresiones (1919). Apareceria pela primeira vez em 1913, compondo La creación de un continente, contudo, com título reduzido La originalidad intelectual.

6Neste artigo utilizamos a edição princeps de Raízes do Brasil, ensaio de teor conservador. Contudo, de acordo com Feldman (2016), nos anos quarenta Sérgio Buarque modificou a mensagem de Raízes. Em seu livro de estreia a democracia não era ainda uma aspiração e as tradições ibéricas foram elogiadas. Para compreender melhor o teor conservador da edição princeps de Raízes, buscamos orientação nas análises de Leopoldo Waizbort (2011). O autor assevera que Sérgio Buarque apropria-se de ideias e do vocabulário do pensamento conservador alemão, leitura que contribuiria para formulação de uma a mensagem pouco promissora no que se refere à democracia.

7Para melhor compreender a apropriação das ideais de Calderón por Buarque, referente à comparação entre América Espanhola e Portuguesa, ver Senra (2020).

8Informações biográficas retiradas do prólogo de Las democracias latinas de América, escrito por Luis Alberto Sánchez e publicado pela Biblioteca Ayacucho, em 1979.

9Conflito que, em finais do século XIX, confrontou Chile às forças conjuntas da Bolívia e do Peru. Ao término da guerra, o Chile anexou áreas ricas em recursos naturais de ambos os países derrotados. O Peru perdeu a província da Região de Tarapacá, e a Bolívia cedeu a província de Antofagasta, ficando sem uma saída para o mar.

10Historiador peruano que trocou diversas cartas com Calderón e na década de 1940 fez entrevistas com autor enquanto ele encontrava-se internado no Asilo Colonial Lacro Herrera para tratar de enfermidades mentais. Sánchez foi o responsável pelo prólogo da obra publicada pela primeira vez em versão espanhola em 1979.

11Ver García Calderón, [1913] 1979 e [1916] (1919).

12Ver García Calderón, [1907] 2010.

13Segundo a teoria da «hiperestesia de arrivismo», formulada por Carlos Octávio Bunge em Nuestra América (1903), o mulato é visto como inferior, dado que ao buscar ascensão social, utiliza métodos escusos para obtê-la.

14Calderón entendia o incremento imigratório germânico nos estados sulinos, bem como sua inadaptabilidade à cultura e gente brasileira, como indícios de um imperialismo velado.

15Informações biográficas retiradas do site: https://cpdoc.fgv.br/producao/dossies/AEraVargas1/biografias/sergio_buarque_de_holanda e da Revista do Brasil, número especial dedicado a Sérgio Buarque de Holanda: artigos e depoimentos sobre o escritor e sua obra, publicado pela Fundação Rio, organizado por Francisco de Assis Barbosa em 1987.

16Na década de quarenta, Buarque participou do Congresso de Escritores opondo-se à ditadura de Getúlio Vargas. Em 1945 fez parte da comissão da Esquerda Democrática, que daria origem mais tarde ao partido socialista. Em 1948 foi incumbido de redigir um relatório para a UNESCO sobre as divergências terminológicas do vocábulo democracia e durante a ditadura militar, em 1978, Buarque tomou parte da fundação do Centro Brasileiro Democrático.

17O Brasil após a independência e diferente de seus vizinhos republicanos, adotou a Monarquia, relacionava-se bem com os Estados Unidos, inimigo comum da maior parte dos países hispano-americanos, sem contar as diferenças culturais de língua e de comportamento.

18Participação em guerras, interesses comerciais, proximidade, instituições políticas, dificuldades em se implantar os princípios liberais, país colonizado.

Fuente de financiamiento: Autofinanciado.

Recebido: 11 de Fevereiro de 2024; Aceito: 25 de Março de 2024

* Autora corresponsal: Iara Andrade Senra, Secretaria de Educação do estado do Rio de Janeiro. Río de Janeiro, Brasil. Correo: iaravr@hotmail.com

Iara Andrade Senra é historiadora e professora de história pela SEEDUC. Doutora em História Comparada pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e mestre em História Social pela Universidade Severino Sombra (USS). É autora de O Brasileiro: A identidade Nacional e a Questão Racial (Paco, 2012; Prismas, 2016). Dedica-se à História Política, pesquisando especificamente a Identidade Ibero-Americana.

Contribución de autoría:

Iara Andrade Senra cumplió todas las funciones CRediT.

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Ninguno.

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